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Piora da economia e juros mais altos devem diminuir acesso a crédito.

Empréstimos vão custar mais caro e bancos ficarão menos dispostos a conceder financiamentos, segundo economistas


A elevação da taxa básica de juros (Selic) e a possível piora de indicadores econômicos, com novas rodadas de medidas de isolamento em razão do agravamento da pandemia de Covid-19, devem tornar o mercado de crédito mais restritivo ao longo deste ano.


Nesse contexto, segundo economistas consultados pela Folha, os empréstimos vão custar mais caro e os bancos ficarão menos dispostos a conceder financiamentos. Isso ocorre quando a economia vai mal, porque os riscos de calote aumentam.


O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central elevou a Selic em 0,75 ponto percentual, a 2,75% ao ano, na última quarta-feira (17), decisão acima das expectativas do mercado.


Os juros estavam em seu menor patamar desde agosto do ano passado, a 2% ao ano, como resposta à crise.


"O prolongamento da pandemia e agora o aprofundamento vai bater na economia e março e abril vão ser muito ruins. O crédito vai ficar mais caro não só pelo aumento da taxa básica, mas pela percepção de que pessoas e empresas não conseguirão honrar seus compromissos", avalia o economista-chefe da JF Trust Investimentos, Eduardo Velho.


"Os bancos vão ficar bem mais cautelosos e a própria demanda por crédito pode cair", aposta o analista. Para ele, o volume de empréstimos pode recuar em 2021. "Com certeza deve haver uma desaceleração, e é possível que haja inclusive queda", diz.


Além disso, apesar dos programas emergenciais de crédito que vêm sendo discutidos, o espaço fiscal é menor e, agora, essas linhas devem ser menos expressivas.


Mesmo diante da pior crise econômica da história recente, o mercado de crédito cresceu 15,5% no ano passado, o que não deve se repetir neste ano. Os empréstimos foram impulsionados por um conjunto de fatores, como os menores juros da história, pacotes de estímulos do governo e afrouxo regulatório.


Dados do Banco Central mostram que o ritmo de concessões de novos créditos já diminuiu. Nos meses mais críticos da crise, como abril e maio, as concessões tiveram queda expressiva. Depois, com medidas de incentivo do governo e da autoridade monetária, chegaram a crescer 9,4% em julho.


Em novembro, o total de novos empréstimos subiu 1,4%, e em dezembro caiu 9,8%. Em janeiro deste ano, houve elevação de 1,9%.


A última previsão do BC para crescimento da carteira de crédito do sistema financeiro foi de 7,8% para 2021. A estimativa foi publicada no último relatório trimestral de inflação, em dezembro.


A autoridade monetária deverá revisar o número na quinta-feira (25), quando será publicado novo relatório.


Rafael Schiozer, professor de finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), avalia que a projeção da autarquia virá menor dessa vez. "Não acredito que o mercado de crédito terá desaceleração tão drástica, mas também não vai se expandir tanto. Acredito que deva ter crescimento real [descontando a inflação] zero, o que seria uma taxa de 4% a 5%", aponta.


Para ele, a tendência é que o BC não repita as medidas que tomou no início da pandemia, com liberação de capital e de liquidez para os bancos.


Liquidez é a quantidade de recursos disponíveis nas instituições financeiras. Quanto mais dinheiro em caixa, maior a possibilidade de aumentarem a concessão de crédito.


"Não há falta de liquidez nos bancos e seria contraditório aumentar a Selic [para reduzir o estímulo na economia] e liberar recursos no sistema financeiro. O que vai se reduzir é o apetite das instituições na hora de emprestar", destaca Schiozer. ​


O BC divulga uma pesquisa trimestral que mede o nível de apetite dos bancos para conceder crédito. O levantamento é medido em escala que vai de -2 a 2. Números negativos indicam baixa oferta e positivos, alta.


Mesmo com as medidas de enfrentamento à pandemia, com linhas subsidiadas pelo governo direcionadas às micro e pequenas empresas, nos segundo e terceiro trimestres do ano passado os números foram negativos para o segmento, -0,53 e -0,17 respectivamente. Nos seis trimestres anteriores o dado tinha sido positivo.


O economista-chefe da consultoria Análise Econômica, André Galhardo, avalia que mesmo que haja expansão no estoque de crédito não serão em linhas voltadas para o investimento, mas ligadas ao aperto financeiro do brasileiro e das empresas.


"Mesmo com os juros mais altos, as pessoas vão precisar tomar empréstimos para consumo de produtos básicos, o que é ruim, porque reflete a queda da renda e o nível de desemprego. Esse tipo de crescimento não é bom", argumenta.


Segundo Galhardo, o spread –diferença entre a taxa de captação dos bancos e o que eles cobram em empréstimos– ainda é um problema no país, mesmo com a queda dos juros nos últimos anos, por causa do alto nível de concentração bancária.


"Mais de 80% do crédito está concentrado na mão dos cinco maiores bancos", pondera.


O presidente da distribuidora de produtos financeiro Wiz, Heverton Peixoto, afirma que o mercado permanecerá em crescimento e que esta é uma oportunidade para que novos entrantes (fintechs e bancos digitais) ampliem sua atuação.


"Há muito espaço para que essas novas instituições atuem, o que democratiza o acesso, reduz taxas e, consequentemente, a concentração no mercado de crédito", pontua.


Para ele, a mudança conjuntural é temporária e não estrutural. "É um movimento [de ingresso de novas instituições e crescimento do crédito] que vai permanecer nos próximos anos", diz.


Fonte: Folha de São Paulo - 21.mar.2021 às 23h15